
A arte é o coração do projeto de desenvolvimento socioeconômico da Usina de Arte. É a energia motora que reúne a comunidade em um movimento de transformação do território, dos modos de olhar e, sobretudo, das pessoas.
Na Usina, a relação com a arte começa muito antes de a obra ocupar o parque. Em muitos casos, começa quando o artista chega para conhecer o lugar. Caminha pela vila, conhece a história da antiga usina, observa a paisagem, conversa com as pessoas que vivem aqui e procura compreender as marcas, os conflitos, as memórias e as possibilidades desse território.
É a partir desse mergulho que nasce a proposta de uma instalação que ocupará uma das áreas da Usina. O processo de construção da obra, quase sempre realizado aqui mesmo, torna-se também um espaço de encontro. Enquanto a obra ganha forma, acontecem conversas, perguntas e trocas sobre o pensamento do artista, suas escolhas e a maneira como aquela peça irá se inserir naquela paisagem.
Esse processo aproxima a arte das pessoas. Traz a criação para perto e converte aquilo que poderia parecer distante ou inacessível em uma experiência compartilhada. A curiosidade desperta, a vontade de experimentar aparece e novas possibilidades começam a ser imaginadas. Não por acaso, dois artistas da própria comunidade já têm obras integradas ao Parque Artístico-Botânico.
Mesmo quando uma obra é fruto de uma aquisição ou doação e chega à Usina depois de concebida em outro contexto, ela não permanece a mesma. Ao ser instalada na zona rural de Pernambuco, em um território historicamente marcado pela monocultura da cana-de-açúcar, passa a estabelecer novas relações com a paisagem, com a história e com quem a observa. O lugar também transforma a obra.
Uma instalação não oferece respostas. Ela abre caminhos. Diante de uma escultura, não há certo ou errado, nem uma única leitura possível. Cada olhar traz sua própria interpretação, e diferentes interpretações coexistem sem hierarquia. Esse exercício, aparentemente simples, tem uma força rara: desfaz oposições rígidas, desarma o pensamento binário e ensina a conviver com a dúvida e com a diferença. É uma experiência de liberdade.
Aqui, essa experiência acontece ao ar livre e faz parte da vida cotidiana. A arte está no caminho de casa, no trajeto até a escola, no jardim por onde se passa todos os dias. A convivência continuada com as obras modifica, pouco a pouco, a maneira como os moradores olham para o lugar onde vivem e para aquilo que esse lugar pode vir a ser.
Participar desse processo também produz pertencimento. Quando as pessoas acompanham a construção de uma obra, conversam com o artista, reconhecem sua própria comunidade naquele processo ou percebem que suas experiências e seus modos de olhar também têm valor, algo se transforma: cresce a autoestima, fortalece-se o vínculo com o território e amplia-se a percepção de que é possível participar da construção de novos futuros.
É nesse deslocamento do olhar que todo desenvolvimento começa: quando aquilo que parecia impossível de imaginar passa a fazer parte do cotidiano; quando a criatividade deixa de ser privilégio de alguns e se torna uma experiência compartilhada; quando uma comunidade começa a reconhecer, no lugar onde vive, não apenas a história que recebeu, mas também as histórias que ainda pode construir.
Ao transformar a maneira como as pessoas percebem o mundo, a arte também amplia as possibilidades de futuro.

Se tivéssemos que resumir a Usina de Arte em uma palavra, seria: engajamento.
Acima de tudo, a transformação da antiga usina de cana-de-açúcar familiar em Santa Terezinha, Água Preta, Pernambuco, nasce do compromisso de Bruna e Ricardo Pessôa de Queiroz em dar um novo propósito a essa usina, bem como à comunidade que moldou sua história. A revitalização do local se concretiza por meio da arte, convidando artistas a criarem obras relacionadas aos lugares "históricos" dessa região de Pernambuco. O povoado adjacente à usina é parte integrante dos planos de renascimento. Esse engajamento com a comunidade se reflete em uma programação educativa, cultural, científica e musical que se desenvolve tanto no parque botânico, onde as esculturas estão instaladas, quanto na destilaria, na biblioteca, no centro de música e na própria vila.
A força deste parque de esculturas reside na sua narrativa bem definida e no seu posicionamento filosófico. Embora a maioria das obras seja resultado de residências artísticas onde os artistas conceberam seus projetos no local e expressaram suas visões, as esculturas adquiridas simultaneamente complementam as mensagens engajadas transmitidas pela usina de arte, abrangendo todos os principais temas da nossa civilização. Para citar alguns exemplos: A frase em néon de Antonio Gramsci, por Alfredo Jaar, fala de hegemonia cultural, uma mensagem que não contradiz a de Paulo Brusky; a instalação de esculturas de Anne e Patrick Poirier é atual e representa metaforicamente a megalomania humana; a moldura circular de Artur Lescher convida a ver o mundo por outra ótica; Bené Fonteles e Flavio Cerqueira abordam a questão da herança africana; Carlos Vergara, Camille Kachami, Denise Milan, Hugo França e Matheus Rocha Pitta falam da natureza em seu devir no momento do Antropoceno ; os bancos de Claudia Jaguaribe retratam a história da usina e de Pernambuco; Geórgia Kyriakakis fala de fronteiras; Frida Baranek encena resíduos industriais militares; José Ruffino e Julio Villani nos imergem na história da cultura da cana-de-açúcar: na grande tradição de "O Nascimento do Mundo", de Gustave Courbet, Juliana Notari oferece uma versão imersiva do lugar da mulher na sociedade; Liliane Dardot revisita a fuga das minorias do Nordeste, Marina Abramovic mergulha na história do Nordeste e oferece seu mausoléu restaurador, Marcelo Silveira proporciona a oportunidade de entrar na casa do antigo Coronel da Usina, Marcio Almeida evoca metaforicamente a desobediência civil, Paulo Meira dá voz à comunidade com seu projeto radiofônico, o labirinto de Regina Silveira é uma visão da realidade de violência e, por fim, Ricardo Pessôa de Queiroz demonstra sua paixão pela preservação do patrimônio cultural, sem esquecer seus dados, que ele lançou no início desta aventura na esperança de obter os números vencedores. Desafio cumprido!
A Usina de Arte lança, portanto, o seu manifesto ao mundo, um manifesto engajado costurado com os artistas, mostrando que, longe de ser uma questão puramente estética, o engajamento e o posicionamento são mais necessários do que nunca em um mundo em convulsão.
Marc Pottier
A construção de uma utopia
Regenerar a paisagem
Semeando novos futuros
Tempo de descobrir